sexta-feira, 19 de julho de 2013

O elo entre a Teoria Cognitiva e a Teoria Comportamental



Por Marcus Vinícius Santos
Psicólogo
      Pela teoria cognitiva, a dependência química resulta de uma interação complexa entre cognições (pensamentos, crenças, ideias, esquemas, valores, opiniões, expectativas e suposições); comportamentos; emoções; relacionamentos familiares e sociais; influências culturais; e processos biológicos e fisiológicos. A TC, obviamente, focaliza primordialmente os processos cognitivos. Estes, por sua vez, interagem com os sistemas emocionais, ambientais e fisiológicos, determinando se uma pessoa terá maior ou menor probabilidade de ser dependente.

        A prática clínica da TC prescinde da teoria. Assim, a TC pode ser considerada a aplicação da teoria cognitiva de psicopatologia a um caso individual. Ela relaciona os vários transtornos psiquiátricos a variáveis cognitivas específicas e se fundamenta em diversos princípios formais e abrangentes. Na teoria da TC, a natureza e a função do processamento de informação e de atribuição de significados aos acontecimentos da realidade constituem a chave para entender o comportamento mal adaptado.

          A teoria comportamental da dependência química tem seu foco nas teorias do aprendizado social (condicionamento clássico, aprendizagem instrumental e modelagem), que será detalhado mais adiante. Entretanto, cognições e comportamentos têm intima relação. A teoria cognitiva tem como uma de suas premissas básicas o fato de que a cognição tem primazia sobre a emoção e sobre o comportamento. Em outras palavras, para a teoria cognitiva, mais importante que a situação real são as cognições associadas a elas. São as avaliações atribuídas à situação específica que influenciam as emoções e os comportamentos. Além disso, no processo terapêutico, as mudanças cognitivas precedem as mudanças emocionais e comportamentais.

        Embora haja significativas diferenças entre a teoria cognitiva e a teoria comportamental, tem sido debatido, ultimamente, que a teoria cognitiva constitui-se como unificadora para a psicoterapia e para a psicopatologia. A TC utiliza um conjunto de técnicas dentro do enquadre do modelo cognitivo da psicopatologia, mas utiliza também técnicas derivadas dos modelos comportamentais. Dada esta complexa relação, recomendamos que a Terapia Cognitiva, a Terapia Comportamental e, principalmente, a combinação delas, sejam aplicadas por profissionais devidamente treinados, com formação e que dominem o conhecimento teórico. Já a Prevenção de Recaída e o Treinamento de Habilidade não consistem formalmente num modelo de terapia. A PR e o TH assentam-se nas teorias cognitivas e comportamentais e sua aplicação clínica baseia-se em técnicas mais aprimoradas para o comportamento de uso de drogas. Portanto, a PR e o TH são ideais para serem utilizados pelos psiquiatras gerais, com treinamento adequado, sem a necessidade da formação nem das supervisões recomendadas por Beck, no caso da TC e TCC.

Bibliografia

1 - Beck AT, Alford BA. O poder integrador da Terapia Cognitiva. Porto Alegre: Artes Médicas; 2000.

2 - Alford EA, Nocross JC. Cognitive Therapy as integrative therapy. Journal of Psychotherapy integrations; 1991;1(3):175-90.

3 - Beck AT, Rush AJ, Shaw BF, Emery G. Terapia Cognitiva da depressão. Porto Alegre: Artes Médicas; 1997.

4 - Liese BS, Beck AT, Seaton K. The Cognitive Therapy Addictions Group. In: DW Brook & HI, editors Spitz. Group Psychotherapy of Substance Abuse. Washington, DC: American Psychiatric Press; 1999.

5 - Liese BS, Franz RA. Treating substance use disorders with Cognitive Therapy: lessons learned and implications for the future. In: Salkowski P. Frontiers of Coginitive Therapy. editors. New York: Guilford Press; 1996. p. 470-508.

6 - Beck AT, et al. Cognitive Therapy of Substance Abuse. New York - London: Guilford Press; 1993.

7 - Beck AT, Wright FD, Newman CF, Leise BS. Cognitive Therapy of Substance Abuse. New York: Guilford Press; 1993.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A Recuperação do Alcoolista



Parar de beber é acontecimento marcante na vida de qualquer alcoólico em recuperação. Quando associado ao dia que buscou ajuda de um Psicólogo ou em A.A., o aniversário deste dia é motivo para comemoração do alcoolismo ou de qualquer doença crônica de dependência, não é apenas um episódio limitado no tempo, e sim, um processo mais ou menos lento, em constante evolução no dia a dia que exige reformulação interior sem data marcada para terminar e que pode ser modificada ou interrompida a qualquer momento. A recaída é um processo de recuperação que pode terminar nela, a menos que seja detida a tempo. Em qualquer doença crônica acontece a mesma coisa. Cito: diabéticos, hipertensos, reumáticos, são exemplos que interrompida o processo de recuperação iniciam assim um processo de recaída, o que vai levá-lo a situação anterior ou a morte. O alcoolismo é uma doença que começa com a dependência química, levando o indivíduo a beber intensa e abusivamente, atingindo a área física contínua a um gradual processo de adoecimento e levando a perder seus valores éticos morais (físico, psíquico e espiritual). Na doença do alcoolismo não existe cura, no entanto é possível retornar a uma vida plenamente normal, desde que se disponha a agir dentro de um processo de recuperação, devendo agir dentro das três fases do rumo natural da dependência:
1ª) recuperação física – abstenção total do uso do álcool;
2ª) recuperação emocional – aceitação, ir com calma, aceitar ajuda, dividir e escutar;
3ª) recuperação espiritual – recuperar e criar novos valores éticos e morais com o objetivo de se amar e aos seus semelhantes, passando a ter um modo de vida sóbrio.
Para passar por essas três fases o doente dependente necessita muitas vezes da ajuda do Psicólogo, e não raro também, ajuda especializada de um Psiquiatra  para vencer as dificuldades e enfrentar todos os problemas dos quais se fugia. É no inicio da recuperação que se tem muitas dificuldades. Cito: a admissão, concentração, nervos a flor da pele reagindo com raiva, egocentrismo, inquietudes, culpas, medo,orgulho, grandiosidade etc. Creio que durem de dois a três meses para superar o sistema nervoso. Passada as três fases é fundamental para o dependente entrar em ação para vencer mais uma barreira, que é o seu inventário moral. Isto significa mexer nos fantasmas arquivados naquele baú da sua mente. Confrontar-se com a realidade do seu “eu” verdadeiro, descobrir virtudes e defeitos não suspeitados, enfim, iniciar uma mudança no seu comportamento, atitudes e valores.
Tudo isso desencadeia sempre reações humanos e naturais, medo e insegurança. Às vezes o organismo apresenta sinais de estresse. O alcoólico é ainda muito sensível. Por isso sempre dizemos “vá com calma”, é necessário que exista uma estrutura emocional mínima já equilibrada para se obter um resultado. O melhor é conhecê-lo e reconhecer sua existência, motivar e em seguida fazer a avaliação real, se não está nas fantasias da mente, e finalmente enfrentá-lo. O inventário é fundamental para não regredir e vencer todos os obstáculos.
Agora existe um “norte”, um rumo a seguir. Passa a ver sua vida e o mundo que o cerca de modo mais equilibrado. Aos poucos o álcool deixa de ser visto como possível solução para resolver problemas, e passa a não ter muita importância em sua vida. É o estado que chamamos valorizando a sobriedade.
O alcoólatra em recuperação jamais deve deixar de comparecer a consulta com seu Psicólogo e às reuniões de alcoólicos anônimos, sendo que nelas encontram-se  valores éticos e morais, impedindo-o de deixar o passado voltar.


Busca do Alcoolista ao Psicólogo



"Há necessidade de o Psicólogo compreender que somente alcançará seu objetivo ( tratamento do paciente e abstenção da droga de preferência) se ele tiver o firme propósito de conscientizar o paciente que será preciso ele modificar e transformar o seu comportamento, evitando assim antigos rituais que o levavam ao primeiro gole ou ao uso da droga de preferência.”

O Paciente ao buscar o Psicólogo, qualquer que seja o tamanho do seu sofrimento, de suas perdas, do que ele está deixando para trás, ele crê haver encontrado a solução, o remédio para os males que o afligia e, cabe ao Psicólogo na hora da recepção desse paciente desesperado, desesperançado, o acolhimento, para depois elaborar uma proposta de trabalho a fim de buscar o corte na ingestão da bebida alcoólica.

Isto ocorre em virtude do nosso instinto maior que é o da sobrevivência, o da conservação que é peculiar a todos os animais e afirmamos que não nos descuidaremos nem desertaremos desse paciente.

À medida que esse paciente, a cada 24 horas, vai evitando o primeiro gole, começamos a explicar-lhe melhor fazendo com que ele entenda sobre a doença, a forma de trabalho e o Programa, e ao mesmo tempo fazendo com que ele perca o medo, que se sinta protegido, fortalecido e confiante.
Quanto mais nos esforçarmos em prol desse paciente mais venturosos seremos.

É possível identificar que os pacientes dependentes de álcool no início são os que permanecem cheios de mágoas, rancor, medos, ressentimentos e se orgulham desse comportamento, mas os que procuram evoluir estão em busca de humildade, cooperação, respeito ao outro; vivenciam os princípios acima das personalidades.

É óbvio que o conhecimento, por si só, não nos torna conhecedores e colocar que todo paciente age da mesma forma, entretanto é necessário que compreendamos que somente alcançaremos nossos objetivos se tivermos o firme propósito de modificar, transformar principalmente o comportamento do paciente.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

"O Alcoólatra - O Mais Doente dos Homens"


-Não me diga que eu não sou um alcoólatra

Por favor, não me diga que eu não sou um alcoólatra. Você põe em perigo a minha vida se o fizer. Se você me convencer a tomar um gole, "apenas unzinho", eu poderia morrer por causa dele.

Estou escrevendo este artigo porque eu sou um alcoólatra, um dos cinco milhões neste país e amigos bem-intencionados continuam a me dizer que eu não sou. "Um alcoólatra? Não seja bobo! Você, não!", eles dizem. "Oh, talvez você tenha bebido um pouco demais, mas você estava sob um bocado de tensão naquela hora. Isso já acabou agora. Vamos lá, cara - diga até onde eu viro".

Já conheci alcoólatras, esforçando-se para eliminar o álcool de suas vidas, que vacilaram e que disseram "até onde virar". Já vi a triste armadilha deste vicio se fechar sobre eles novamente. Já os vi morrer disto. A maioria dos alcoólatras morre disto.

 


  Os equilibristas da corda bamba

Isto, porque o alcoolismo é uma doença fatal, caso se permita seguir o seu curso. Ela pode ser retida caso a vítima pare de beber, mas não pode ser curada! Uma longa abstemia não faz diferença alguma. Um alcoólatra que não tocou em bebida durante vinte anos é tão alcoólatra quanto sempre havia sido. Dizer a tal pessoa que ela não tem uma doença incurável e fatal é absolutamente uma loucura - e quase sempre é exatamente o que a vítima quer ouvir.

Ninguém fica contente em ser alcoólatra. A maioria de nós que está fazendo um programa de recuperação - e nós representamos apenas uns patéticos 6 ou 7% dos cinco milhões vitimados - temo-nos esforçado para aceitar dolorosamente um fato nu e cru: nós somos FISICAMENTE DIFERENTES em nossa reação ao álcool. NÓS NÃO PODEMOS BEBER. Do reconhecimento constante desta realidade depende nossa felicidade, nossa sanidade e nossas vidas. Mas nós somos tais como equilibristas na corda bamba: um pequeno empurrão pode nos mandar voando lá para as profundezas.

Porque, então, são as pessoas bem-intencionadas culpadas, algumas vezes, de nos darem este empurrão?



Em primeiro lugar, amigos que gostam da gente não querem que sejamos alcoólatras por causa da má repercussão que tal palavra ainda causa. A ciência médica finalmente rotulou o alcoolismo justamente como ele é: uma doença. Portanto, quando um amigo tenta lhe dizer que você não é um alcoólatra, ele pensa que está sendo gentil com você.

Em segundo lugar, muita gente ainda concebe uma visão fixa e estereotipada do que é um alcoólatra - um lixo humano caído na sarjeta ou um imprestável milionário convalescendo, numa boa, em Campos do Jordão. Se você não se enquadra em nenhuma destas duas categorias, eles acham impossível acreditar que você perdeu a sua tolerância ao álcool.

Em terceiro lugar, a admissão que é um alcoólatra perturba alguns de seus amigos porque é uma ameaça aos hábitos de beber de alguns deles mesmos. " Se esse cara é um alcoólatra", eles dizem a si mesmos com um certo desconforto, "eu, o que sou?"

Existe pouca lógica em tal reação. Somente um em quinze ou dezesseis bebedores se torna um alcoólatra. Mas eu tenho tido uma nítida impressão, em muitas ocasiões, de que a pessoa que me está assegurando, em voz alta, que eu não poderia ser um alcoólatra, estava verdadeiramente tentando assegurar-se a si próprio.

E, finalmente, os alcoólatras, muitas vezes, têm de encarar forte oposição por parte de parentes próximos, os quais pensam que admitir tal fato trará desgraça ou desaprovação para a família. Há pouco tempo, uma boa amiga minha morreu de alcoolismo. Com a idade de 43 anos, os médicos chegaram à conclusão de que suas deficiências físicas indicavam que ela era uma alcoólatra desde muitos anos. Ainda assim, seis meses antes dela morrer, o pai dela me disse impacientemente que ela não era uma alcoólatra e mencionou o nome de uma dúzia de mulheres que bebiam mais e se comportavam pior do que ela.

Todos os amigos e conhecidos dela também tinham lhe assegurado que ela não era uma alcoólatra. A maioria ainda pensa que ela morreu de um ataque do coração, uma mentira que os jornais fielmente reproduziram.

A única maneira pela qual o alcoólatra pode começar um programa de recuperação é através do reconhecimento da sua doença. Isto nunca é fácil, porque esta admissão, invariavelmente, carrega consigo uma tendência mortal de justificar, racionalizar e negar qualquer coisa que possa acarretar o fim da bebida. Acreditem-me, eu sei, eu mesmo passei por isto.



Uma compreensão cruel

Há alguns anos, três bons amigos meus aparentavam ter problemas com a bebida; então eu obtive e li o livro "ABC sobre o alcoolismo" de Marty Mann, com a idéia de ajudá-los. Muitos anos depois, o meu próprio comportamento em relação ao álcool estava suficientemente anormal e deprimente para me fazer buscar novamente este livro. Eu o li de novo e li também "Apenas mais um" de James Lamb Free. Foi uma experiência trágica. Eu tentei freneticamente me esquivar. Busquei todas as maneiras de provar que eu não era um alcoólatra, mas a evidência era forte demais.

Que evidência? Bem, em um de seus estudos clássicos, o Dr E. M. Jellineck fez uma lista das características mostradas pela vítima do alcoolismo em três estágios sucessivos da doença. Eu descobri que muitas descrições eram aplicáveis ao meu próprio comportamento... Apagamentos, por exemplo. Estes são episódios que envolvem falta de memória, mas não devem ser confundidos com "desmaios". Houve muitas ocasiões quando eu pude jogar cartas competentemente a noite inteira e não me lembrar ou lembrar muito pouco disto no dia seguinte. Uma vez eu guiei 120 milhas de San Francisco até minha casa, em Pebble Beach e acordei no dia seguinte não me lembrando de ter feito tal viagem.



O Remorso do dia seguinte

Muitos outros sintomas assinalados pelo Dr. Jellineck apareciam na minha atitude de bebedor, apesar de que, assim como muitos alcoólatras, eu normalmente conseguia escondê-los de meus amigos. Bebidas escondidas, evasivas sobre os hábitos de beber, remorso excessivo no dia seguinte - os sinais estavam muito claros. Eu ainda estava anos de distância da sarjeta, mas já estava à caminho. Não aparentava ser um alcoólatra.

Obviamente não agia como tal. Mas quando finalmente descrevi os meus sintomas a um médico, ele confirmou meu receio - eu era um deles!

Lembro-me muito bem da reação de meus amigos íntimos. Foi quase violenta: escárnio, negativas, zanga, provas infinitas de que eu não poderia ser um alcoólatra. Calmas e maravilhosas palavras para um homem que implora por uma bebida!

Bem-vinda justificativa para começar tudo de novo!

Eu sei que essas reações eram baseadas na ignorância - concepções falsas do que é um alcoólatra e como a doença se manifesta. Ninguém sabe tudo sobre o alcoolismo; até para os especialistas, alguns aspectos dele continuam a ser um mistério. Permitam tentar corrigir algumas concepções das mais erradas.

Para começar, por favor, não considere o alcoólatra uma criatura moralmente fraca. Na verdade, ele pode ter mais força de vontade do que você. Mas ele é um doente - o mais enfermo dos homens.

Em seguida, não limite a imagem na sua mente do alcoólatra ser um lixo nos últimos estágios da doença. Aí está lixo na sarjeta, perto da insanidade e da morte. Foi recentemente que ele se tornou um alcoólatra? Não teria sido há cinco anos, quando se tornou lavador de pratos?

Não teria sido há dez anos, quando a mulher dele pediu o divórcio? Não teria sido há quinze anos quando ele perdeu o emprego no banco? Não foi há vinte anos, quando ele começou a beber escondido para se certificar de que obtinha "a conta certa"? Não foi há vinte e cinco anos, quando ele sofreu os primeiros apagamentos? A ciência moderna sabe que ele se havia tornado um alcoólatra vinte e cinco anos atrás e que era tão alcoólatra então, quanto é agora.

Tente se lembrar que o alcoolismo é uma doença como um iceberg - os sintomas estão, na sua maior parte escondidos, logo no começo. Na realidade, durante os primeiros cinco ou dez anos, os alcoólatras geralmente tomam muito cuidado em parecer bebedores sociais normais. È o bêbado da pesada ou um porrista eventual o que se comporta mal.

O alcoólatra aparentemente fica sóbrio, mas é ele que cai fora primeiro de uma festa de coquetéis, muitas vezes com o pretexto de "ter trabalho para fazer", mas vai para casa ou para um bar longe do caminho e satisfaz a sua cruel necessidade compulsória.

Não se deixe levar pelas aparências. A minha mulher Virgínia, que se recuperou do alcoolismo quando tinha 29 anos, é uma mulher jovem e enérgica. As pessoas quando a conhecem e sabem da sua doença, invariavelmente protestam: "Você não pode ser uma alcoólatra; parece tão saudável quanto uma criança!" Ela é uma alcoólatra - e parece tão jovem quanto qualquer vítima da doença que muito cedo tenha sido abençoada por uma recuperação.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS deixa as estatísticas a cargo das autoridades médicas e dos grupos de pesquisa. Mas é geralmente um fato aceito, que no começo, 24 anos atrás, a média de idade dos membros AAs era 50 anos ou mais, porque somente os fins-de-linha eram considerados alcoólatras. Hoje, graças principalmente ao notável trabalho educacional do Conselho Nacional do Alcoolismo, pessoas mais jovens estão se juntando a vários programas de recuperação. A maioria dos recém-chegados ao A.A. hoje em dia, varia desde adolescentes a pessoas de 20, 30 ou 40 anos. Eles estão reconhecendo a doença mais cedo.



A linha invisível

Isto me leva a uma última recomendação. Algumas vezes, ao jovem alcoólatra recuperado é dito que ele deve ter tido um caso ligeiro, uma vez que o caso não progrediu muito e que ele certamente deve ser capaz de tomar uma cervejinha ou um vinhozinho. Em primeiro lugar, não existe um "caso ligeiro". O alcoólatra que atravessa a linha invisível é - e sempre será - um alcoólatra toda a sua vida. E não existe " o alcoólatra parcial".

Ou você é ou não é. Em segundo lugar, não importa se a bebida fatal é vinho, cerveja ou uísque Burbon 100º - ou até mesmo um xarope à base de álcool. É o álcool que causa dano, em qualquer forma.

Portanto, tente nos ajudar. Recomende àqueles que podem ser bebedores-problema que procurem em qualquer catálogo telefônico da cidade onde moram o tel de ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, e perguntem onde encontrar uma sala de um Grupo de A.A. em todo o País. Mas não lhes diga que eles não são alcoólatras. Se você estiver errado e eles acreditarem, eles podem morrer...


Transcrito do Folheto impresso em Edição Comemorativa dos 40 Anos de A.A. no Brasil. SETEMBRO 1987

A Tática do Avestruz



   Nas arquibancadas do estádio do Maracanã existem balcões onde se vende cerveja durante os jogos de futebol. Reparem como ali ficam algumas pessoas bebendo o tempo todo, de costas para o campo. Para assistirem o jogo, bastaria virar o corpo – mas não o fazem. Será que não gostam de futebol? Mas então, que teria motivado essas pessoas a saírem de casa, comprarem ingresso, sujeitar-se a vários incômodos e riscos? Se perguntarmos, no entanto, vão afirmar categoricamente que são ardorosos torcedores de um dos times em campo e não perderiam uma partida por nada deste mundo
   Vejamos outra cena, um dia de verão, na praia: muita gente passa o dia todo bebendo, debaixo de barracas quentíssimas, sem pegar sol ou cair na água. Apesar disso, dizem adorar uma praia, a ponto de frequentá-la todo fim de semana.
   Estas situações refletem o mais constante sintoma da doença alcoolismo – a negação – e podem até ter algo de engraçado, mas constituem verdadeira tragédia para o alcoólico, que freqüentemente morre negando sua enfermidade. Ao negar sua perda de controle, o alcoólico não é mentiroso, pelo menos conscientemente, mesmo porque esta perda de controle acontece de forma lenta e progressiva. No início ainda há algum controle, com ele bebendo só nos fins de semana ou após certas horas do dia. Aos poucos, porém o doente vai criando um manto de fantasia, que o faz ser o primeiro a acreditar não ter problemas com o álcool. Trata-se de um mecanismo psíquico de proteção, para não enfrentar a dura realidade de estar tendo comportamentos irresponsáveis. Paradoxalmente, não consegue viver sem bebida, reconhecendo até ser o consumo exagerado em certas ocasiões. A explicação, para ele, está nos sérios problemas que vem enfrentando no momento; se os problemas desaparecessem, voltaria a beber controladamente. Assim, enquanto aguarda o milagre, vai bebendo cada vez mais.
   Este mecanismo de negação, que se desenvolve dentro da personalidade do indivíduo, não se limita apenas à afirmativa, para si e para os outros, que não é alcoólico. É necessário também inventar uma série de desculpas, para manter uma aparente lógica nas coisas que se anda fazendo – é o que se chama de manipulação. Este manto de fantasia, fabricado por ele mesmo, fica cada vez mais espesso, mais duro, mais resistente, até isolar o doente do mundo real, como se fosse uma larva de bicho-da-seda envolvida no casulo.
   É claro que as coisas continuam existindo como elas são, o emprego, a família, os amigos, mas tudo isso torna-se a cada dia menos importante. Os mais íntimos questionam: “Por que ele faz isto conosco? Será que não gosta mais da gente?” Ou afirmam: “Se você me amasse, parava de beber!”. São questões que incomodam, despertam sentimentos de remorso, culpa e autoridade, mas que ele não sabe resolver, porque julga impossível separar-se do companheiro álcool. Então ele nega os fatos, inventa justificativas, manipula, faz promessas que não consegue cumprir, tudo o que for possível para se fechar cada vez mais dentro de um outro mundo, só existente no seu delírio – mas que é só seu, seu mundo de negação.
   Para conviver melhor com sua fantasia, muitos alcoólicos passam  a só freqüentar lugares onde haja bastante bebida e selecionar suas amizades entre gente que também bebe bastante. Se for convidado para um aniversário de criança, sabendo que só vai encontrar bolo de chocolate e coca-cola, recusa, dizendo não ter paciência para este tipo de festa. Mas é capaz de pegar 3 ônibus para ir ao churrasco na casa de um desconhecido. Pensa em álcool todas as horas do dia: quando será que vou poder tomar a primeira? A que hora fecha o bar do hotel? Não esquecer que muitos supermercados fecham aos domingos! Lá no sítio da minha sogra vai ter bebida? É melhor garantir, levando uma garrafa na mala!
   Para melhor entender o processo, vamos substituir a palavra “álcool” por “azeitonas”: Quando será que vou comer a primeira azeitona hoje? Será que lá naquele sítio há azeitonas? É melhor levar umas latas na mala! Fica bastante estranho, qualquer pessoa que só pensasse em azeitonas o tempo todo, seria chamado de maluco. Mas o dependente químico da álcool continua afirmando que seu comportamento é normal.
   Na árdua tarefa de continuar negando seu alcoolismo, o alcoólico tem também de aprender a ser esperto, desenvolvendo a habilidade de esconder o quanto anda bebendo. Muitas vezes para de beber dentro de casa, mas a toda hora tem de sair para comprar cigarros. Na rua freqüenta diversos botequins, evitando tomar mais de duas ou três doses no mesmo lugar, para não ser chamado de beberrão. Às vezes começa a beber em um bairro, termina em outro. Bebe antes de ir para uma festa, para quando estiver lá, fingir que bebe pouco. Escolhe vodca, porque ouviu dizer que não deixa cheiro. Anda sempre com balas e pastilhas de hortelã, para disfarçar o hálito. Enfim, esconder seu alcoolismo dos outros passa a ser procedimento de rotina, que ocupa boa parte da sua atenção.
   Já para provar a si mesmo que não é alcoólatra, os mecanismos de negação são outros:
      1 – Tenta beber menos quantidade, embora com a mesma freqüência.
      2 – Tenta beber com menos freqüência, embora a mesma quantidade.
      3 – Tenta não beber durante a semana de trabalho, mas fica contando os dias e horas que faltam para sexta-feira chegar.
      4 – Tenta usar outras drogas para diminuir a quantidade de bebida, tomando tranqüilizantes de manhã, para parar de tremer, ou anfetaminas de noite, para poder dirigir o carro.
      5 – Muda a marca ou tipo de bebida, assumindo que a anterior é que lhe fazia mal. Ilude-se trocando um litro diário de cachaça por 5 litros de cerveja, achando que assim bebe menos álcool. Sendo mais rico, substitui uísque nacional, por outro importado.
      6 – Fica temporariamente em abstinência, por exemplo, quando internado para desintoxicar, quando obrigado a tomar antibióticos ou apenas para “dar um tempo”, depois de uma consulta médica preocupante. Note-se que estes períodos de abstinência tem data marcada para acabar e seu fim é ansiosamente esperado. Quando terminam, o alcoólico acha que depois de tanto sacrifício, agora ele merece “tomar uma só” e tudo começa de novo, detonado pelas poderosas forças da dependência química.
   Os períodos de abstinência servem para afirmar e reforçar cada vez mais a negação, embora só sejam conseguidos à custa de maior ou menor sofrimento emocional. O objetivo é provar a si mesmo e aos outros que ele não é alcoólico, que domina perfeitamente a situação e que para de beber quando quer. As frases clássicas são: “Na verdade, eu não preciso beber, acontece que eu realmente gosto de álcool”. Ou então: “Se você tivesse em sua vida os problemas que eu tenho, iria beber ainda mais do que eu”.
   À medida que a doença progride, mais e mais este manto de fantasia impede o doente de ver sua realidade. Ele muda de comportamento e atitudes, perde seus valores, cada vez mais enredado na teia da dependência. Basta ler o Livro Azul de Alcoólicos Anônimos, para ver como duas emoções básicas, orgulho e medo, tão saudáveis quando são equilibradas e baseadas em fatos reais, podem tornar-se exasperadas e delirantes, originando as mais variadas turbulências de raiva, inveja, ciúme e ódio.
   O alcoólico passa a agir ao sabor da primeira emoção descontrolada que lhe vem à cabeça e, quando as coisas não dão certo, bota a culpa nos outros ou nas situações de vida. Expectativas fantasiosas tornam-se regra e como não se realizam, trazem frustrações, autopiedade e necessidade ainda maior de bebida.
   Neste ponto, o manto de fantasia confunde-se com a carapaça da negação, dura, resistente, impenetrável pelo lado de fora, como o casulo. Porém lá dentro, o bicho-da-seda pode encontrar forças para rompê-lo e, ao se livrar dela, sair da escuridão para a luz.
   Como o alcoólatra que, vencendo a negação ao reconhecer sua impotência frente ao álcool, encontra o caminho da recuperação e da vida.
   E de repente descobre que não gosta tanto assim de praia, nem de freqüentar o estádio do Maracanã...


Alberto Duringer
Médico no Rio de Janeiro
Conselheiro no Conselho estadual de Entorpecentes (CONEN-RJ)